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Valongo do Vouga

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Partem-se-lhes os dentes

Aprendi com o meu velho avô que a cão que morde no dono partem-se-lhe os dentes. Claro que sei que o sentido é necessariamente figurado, que a expressão não passa de rifão popular. Contudo, tem isto naturalmente um fundo de verdade – significa pois o respeito que todos devemos ter por quem, não sendo nosso dono, de algum modo contribui para o que somos. Vem isto a propósito do facto de, ao longo dos últimos dias, ter contactado com algumas comunidades onde empenhei alguns anos procurando fazer o melhor que pude e sabia. É, aliás, gratificante constatar a evolução de tais comunidades, bem como o carinho e afecto que existe de parte a parte. Tenho que admitir que quase me embebece o modo próximo e íntimo com que me sinto tratado. Diria que quem assim como eu, por opção e devoção, dedica a vida convictamente ao serviço de uma causa e reconhece nestes pequenos gestos e sinais que não se enganou e valeu a pena, está perfeitamente recompensado e não tem que cobrar mais coisa alguma. Claro que este é apenas um lado da questão. Outros há, porém, que são, está-se bem a ver, os lados esquinados – os de comunidades, pessoas ou grupos que, tendo recebido tudo, se tornaram tão ricos ao ponto de não serem capazes de reconhecer os contributos, pequenos ou grandes, signicantes ou insignificantes, para a sua soberba actual. Também graças ao Pai do Céu tenho tido oportunidade na minha vida de encontrar alguns destes, dos que nada tinham e à custa do esforço de outros agora tudo têm e só não mordem em quem tudo lhes deu porque felizmente não têm forma de o fazer. Não se entenda, no entanto, que digo tudo isto por, pessoalmente, estar triste com alguns destes a quem o meu avô me ensinou a partir os dentes. O problema é que isto acontece em todos os sectores e vertentes da nossa vida pessoal e comunitária. Para ser mais concreto, diria que já vi políticos aclamados e idolatrados, explorados até quando estiveram na mó de cima, a cair em desgraça e serem não só abandonados como, algumas vezes, ostracizados pelos que antes “mamaram” à sua custa. Já vi também padres e conheço pessoalmente alguns que gastaram as suas vidas e todas as suas energias ao serviço de comunidades que, posteriormente, pura e simplesmente os ignoram. Ainda assim, não digo porque estou triste. Pior do que tudo é que também conheço pais que tudo fizeram pelos seus filhos e estão hoje abandonados e encostados num qualquer canto sem que aqueles a quem deram a vida (e por quem tudo fizeram) tenham um simples gesto de gratidão. Por tudo isto, e porque já sou velho, não ando à espera de ser agradecido por nada do que faço, já que, antes de mais, é em nome do meu bem-estar e da minha felicidade que me dedico às coisas e causas em que estou implicado. Não me importo, porém, de sentir, como senti estes dias, o afecto e o carinho dos que, reconhecendo as minhas opções, o manifestam desta ou daquela maneira. Não seria partidário assim à primeira impressão de que se partissem os dentes aos outros. Aos tais que, comendo pelas mãos do dono, em seguida lhas mordem. Mas lá que mereciam, mereciam. E quem sabe se, com um ou dois dentes partidos, não se sentiriam na obrigação de agradecer as insignificâncias da vida. É que ninguém reconhece a importância do dente com que parte as nozes até que o maldito lhe doa.

 

Texto enviado pelo Padre João Paulo Sarabando

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