Notícias sobre Valongo do Vouga
Segunda-feira, 16 de Maio de 2005
Soltem os prisioneiros

Confesso que estou a ficar um bocado cansado, para não dizer farto, com a história deste dito realizador português preso no Dubai, por ter consumido droga num país em que, estava farto de saber, isso é punido por lei, ainda que a tal droga chamem ligeira. Não há noticiário que não fale da criatura e até o senhor presidente já se meteu no assunto a pedir clemência às autoridades do país em questão. Primeiro, não entendo o que é isso de droga ligeira. Sou infelizmente fumador e sei que há cigarros com mais e menos nicotina (e outras inas que para aqui não são chamados), mas são todos cigarros. Também bebo e sei que o teor alcoólico das diversas bebidas não é o mesmo, sendo que um bêbado é sempre um bêbado, quer se embriague com cerveja quer com whisky. Falta explicar-me, a mim que tenho a cabeça pequenina para este tipo de questões, por que é que uma droga é leve e outra é pesada?! Já estou a ver um outdoor numa qualquer cidade – “Embebede-se com a cerveja x porque é mais leve”. Afinal caiu o Carmo e a Trindade porquê? Porque no Dubai (país não só riquíssimo como também evoluidíssimo) um português que, por acaso, é realizador, consumiu uma droga ilícita e foi condenado? Sabem os meios de comunicação e eventualmente o poder político que no Dubai, não a fazer turismo mas a ganhar pão para a família, há portugueses a trabalhar arduamente na construção civil e não consta que tenham sido presos por terem cometido o mesmo crime. Em Espanha, aqui tão perto e afinal tão longe, soube-se há dias que há dezenas ou centenas de portugueses a ser explorados, roubados e até espoliados da sua dignidade. A notícia durou apenas um dia. Não ouvi o poder político a dizer que estava a negociar com as autoridades espanholas a libertação destes escravos do século XXI. Poderia, eventualmente, se o espaço de uma crónica o permitisse, dar aqui um sem número de exemplos da nossa história recente. Desde logo com as mulheres que, todos sabem, são espantadas de Portugal e vão ali para 20 km da fronteira fazer o mesmo que as levou a serem corridas do lado de cá. Isto só vale uma pequena notícia, rápida e de um dia, quanto muito dois. O realizador dá entrevistas às televisões, às rádios, assumindo que consumiu drogas e tudo isto passa nas rádios e televisões em horário nobre pedindo clemência às autoridades portuguesas. O que hão-de pedir senão clemência as centenas de jovens que entopem as cadeias portuguesas exactamente por terem cometido o mesmo crime, isto é, consumirem drogas? Se tinham menos nicotina ou menos alcatrão ou menos teor alcoólico, não eram senão drogas. E produziram o mesmo efeito: cadeia. De modo que, cá para mim, que como disse fui dotado com um simples cérebro de passarinho, ou há moralidade ou comem todos. E assim sendo libertem o famoso do Dubai, mas por favor, soltem os prisioneiros que neste país cometeram o mesmo erro. P.S.1: Já sei que uns quantos iluminados dirão que em Portugal não se é preso por consumir drogas ditas leves. Sim, eu sei, mas sei também porque dei morada na minha própria casa a alguns toxicodependentes que hoje estão presos por culpa das consequências desta sua “doença”. Quase todos começaram o caminho que os levou a este triste final por consumirem as ditas drogas leves. Os incrédulos podem ver as estatísticas que estão publicadas e disponíveis para todo e qualquer um que as queira consultar. Por mim, não preciso de consultar estatísticas, porque conheci, vivi e experimentei ajudar à libertação de muitos daqui das nossas terras. Por isso, não canto de galo. Falo do que sei. P.S.2: Gostaria ainda de saber quanto terá custado a cada contribuinte a arquivação do processo do realizador... Afinal, quantos investimentos fez a diplomacia portuguesa para libertar da respectiva pena o português que acendeu um charro num país onde só vai quem tem dinheiro ou precisa mesmo de trabalhar - e, portanto, não tem para charros?

 

Texto enviado pelo Padre João Paulo Sarabando


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publicado por Filipe Vidal às 23:11
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1 comentário:
De Paulo Pereira a 17 de Maio de 2005 às 16:37
Irrepreensível!

Apenas me resta – como a qualquer outro simples cidadão Lusitano – subscrever este artigo na integra.


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