Notícias sobre Valongo do Vouga
Segunda-feira, 16 de Maio de 2005
Partem-se-lhes os dentes

Aprendi com o meu velho avô que a cão que morde no dono partem-se-lhe os dentes. Claro que sei que o sentido é necessariamente figurado, que a expressão não passa de rifão popular. Contudo, tem isto naturalmente um fundo de verdade – significa pois o respeito que todos devemos ter por quem, não sendo nosso dono, de algum modo contribui para o que somos. Vem isto a propósito do facto de, ao longo dos últimos dias, ter contactado com algumas comunidades onde empenhei alguns anos procurando fazer o melhor que pude e sabia. É, aliás, gratificante constatar a evolução de tais comunidades, bem como o carinho e afecto que existe de parte a parte. Tenho que admitir que quase me embebece o modo próximo e íntimo com que me sinto tratado. Diria que quem assim como eu, por opção e devoção, dedica a vida convictamente ao serviço de uma causa e reconhece nestes pequenos gestos e sinais que não se enganou e valeu a pena, está perfeitamente recompensado e não tem que cobrar mais coisa alguma. Claro que este é apenas um lado da questão. Outros há, porém, que são, está-se bem a ver, os lados esquinados – os de comunidades, pessoas ou grupos que, tendo recebido tudo, se tornaram tão ricos ao ponto de não serem capazes de reconhecer os contributos, pequenos ou grandes, signicantes ou insignificantes, para a sua soberba actual. Também graças ao Pai do Céu tenho tido oportunidade na minha vida de encontrar alguns destes, dos que nada tinham e à custa do esforço de outros agora tudo têm e só não mordem em quem tudo lhes deu porque felizmente não têm forma de o fazer. Não se entenda, no entanto, que digo tudo isto por, pessoalmente, estar triste com alguns destes a quem o meu avô me ensinou a partir os dentes. O problema é que isto acontece em todos os sectores e vertentes da nossa vida pessoal e comunitária. Para ser mais concreto, diria que já vi políticos aclamados e idolatrados, explorados até quando estiveram na mó de cima, a cair em desgraça e serem não só abandonados como, algumas vezes, ostracizados pelos que antes “mamaram” à sua custa. Já vi também padres e conheço pessoalmente alguns que gastaram as suas vidas e todas as suas energias ao serviço de comunidades que, posteriormente, pura e simplesmente os ignoram. Ainda assim, não digo porque estou triste. Pior do que tudo é que também conheço pais que tudo fizeram pelos seus filhos e estão hoje abandonados e encostados num qualquer canto sem que aqueles a quem deram a vida (e por quem tudo fizeram) tenham um simples gesto de gratidão. Por tudo isto, e porque já sou velho, não ando à espera de ser agradecido por nada do que faço, já que, antes de mais, é em nome do meu bem-estar e da minha felicidade que me dedico às coisas e causas em que estou implicado. Não me importo, porém, de sentir, como senti estes dias, o afecto e o carinho dos que, reconhecendo as minhas opções, o manifestam desta ou daquela maneira. Não seria partidário assim à primeira impressão de que se partissem os dentes aos outros. Aos tais que, comendo pelas mãos do dono, em seguida lhas mordem. Mas lá que mereciam, mereciam. E quem sabe se, com um ou dois dentes partidos, não se sentiriam na obrigação de agradecer as insignificâncias da vida. É que ninguém reconhece a importância do dente com que parte as nozes até que o maldito lhe doa.

 

Texto enviado pelo Padre João Paulo Sarabando


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publicado por Filipe Vidal às 23:12
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1 comentário:
De Filipe Vidal a 17 de Maio de 2005 às 17:53
Não sendo perfeito conhecedor na íntegra do motivo que leva ao tal "sentimento de quebra dentes" que é muitas vezes a gota de água que faz transbordar o copo, posso se calhar também socorrer-me da sabedoria popular para acrescentar apenas mais um mote para a reflexão de todos quantos possam ler : Palavras do meu Avô que (não obstante ser inspector do ensino primário)creio que era mais popular que erudito. Assim transcrevo as palavras que estão num dos azulejos da casa onde morou e que nesta simples passagem terrena "é minha"... Aqui ficam : " O dia do favor é a véspera da ingratidão" Assinava com o pseudónimo de "ARGOS " (Arménio Gomes dos Santos)


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